Arte contemporânea – os gigantes no pavilhão da Bienal
Por Júlia Frate Bolliger
Sade for Sade’s sake 2009 | Paul Chan
Se você gosta de arte contemporânea, prepare-se: de setembro a dezembro nomes consagrados e jovens artistas emergentes estarão reunidos em São Paulo para a mostra Em Nome dos Artistas – arte contemporânea norte-americana na Coleção Astrup Fearnley.
Após promover a 29a Bienal ano passado, a Fundação Bienal, em parceria com o museu Astrup Fearnley, da Noruega, decidiu trazer uma das mais importantes coleções de arte contemporânea para seu Pavilhão. Com foco na produção norte-americana, a mostra trará individuais de gigantes como Jeff Koons, Cindy Sherman, Matthew Barney, Felix-Gonzalez Torres, Richard Prince e, como convidado especial, do britânico Damien Hirst.
Pela primeira vez expostos em conjunto tão expressivo no país, 50 artistas ocuparão os três andares do Pavilhão da Bienal. Segundo o diretor do museu norueguês e curador da mostra, Gunnar Kvaran, “será a primeira vez que veremos nossa coleção em uma escala tão grande”.
Enquanto a mostra não chega, nas próximas páginas você pode matar um pouco a curiosidade e conferir o que esperar para o fim do mês:
Damien Hirst
Eulogy 2008 | Damien Hirst
O prodígio britânico, que causou imensa polêmica com seus “animais congelados” da série Natural History ainda na faculdade terá 13 obras expostas no Pavilhão da Bienal. Entre elas a impactante Mother and Child Divided, de 1993. O trabalho exibe uma vaca e um bezerro cortados ao meio dentro de tanques de formol. Cada metade dos corpos fica em uma câmara de vidro separada da outra, de forma que o público possa passar por entre elas e observar de perto as entranhas dos animais.
A obra, que inevitavelmente atrai o olhar do espectador, coloca o homem cara a cara com a morte. A alguns causa repulsa e indignação – houve e ainda há muito questionamento em torno do fato de se utilizar o corpo de um ser vivo para compor uma obra de arte – e a outros interessa e até fascina.
Também permeando a questão da morte, outras duas peças presentes na exposição são Eulogy, de 2008 e I Feel Love, de 1994-1995. Ambas, à primeira vista agradáveis ao olhar, foram construídas com borboletas mortas. O colorido das asas dos insetos compõe quadros belos que, ao mesmo tempo, comportam certa melancolia e morbidade, já que congelam o movimento natural do bater das asas que remete ao pulsar da vida.
O conjunto de obras de Hirst presente na exposição ainda conta com algumas pinturas, obras compostas por moscas ou cinzas de cigarro e, sem dúvida, muito incômodo para o espectador. Seja adorado ou odiado, sem dúvidas o trabalho do artista jamais passa despercebido e sem causar algum tipo de desconforto.
Jeff Koons
Triple Hulk Elvis III 2007 | Jeff Koons
O norte-americano que já ganhou o posto de artista vivo mais caro é conhecido em todo mundo por transformar em arte o banal e o kitsch e por polemizar a questão da autoria. Chamado por muitos de o “rei do kitsch”, Koons trabalha com imagens de personagens de desenhos animados, celebridades e anúncios de revistas utilizando como materiais objetos como utensílios domésticos, bibelôs e brinquedos infantis.
E o artista deixa claro que não coloca as mãos em suas obras: ele elabora a ideia e assistentes são contratados para executar o trabalho. Em Triple Hulk Elvis II, por exemplo, imagens são fotografadas e escaneadas, montadas no computador e o resultado é reproduzido em pintura sobre uma gigantesca tela por uma equipe, fragmento por fragmento. O fato do trabalho ser executado por outras pessoas que não o artista levanta muitas críticas e questionamentos quanto à autoria de suas obras e o conceito de autoria no geral.
Estarão expostas também no Pavilhão, entre as 11 selecionadas, Three Ball Total Equilibrium, de 1985, onde três bolas de basquete estão imobilizadas, como se flutuassem, no centro de um aquário, fetichizando o objeto do jogo mais popular dos Estados Unidos, Titi, uma escultura em aço que mimetiza um balão do personagem de desenho animado Piu-Piu, e duas controversas fotografias com conteúdo sexual explícito da série Made in Heaven, protagonizadas pelo artista e sua então mulher, estrela de filme pornô, Ciocciolina, colocando a pornografia como arte.
Felix Gonzalez-Torres
Untitled (Blue Placebo) 1991 | Felix Gonzalez-Torres
O artista nascido em Cuba e radicado nos Estados Unidos até sua morte, em 1996, marcou o cenário da arte por conseguir romper barreiras entre o público e vanguardas contemporâneas e assuntos marginalizados na época, como a Aids e o homossexualismo. Para Torres, a colaboração do espectador deve ser condição para o acontecimento de uma obra de arte e seus trabalhos foram fortemente marcados por sua experiência e de seu companheiro Ross, ambos falecidos em decorrências do vírus da Aids.
Por aqui você poderá ver a obra Untitled (Blue Placeco), de 1991, na qual 130 quilos de balas de hortelã enroladas em papel azul descansam sobre o chão, como um grande tapete. Não por acaso, o peso das balas é equivalente ao do artista somado ao de seu companheiro, morto seis anos antes de Torres. O espectador é convidado a levar uma bala consigo e só assim a obra acontece, como se a performance expurgasse a dor da perda. Cada pequena bala é como se fosse um fragmento do casal, que se desfaz de forma doce nas mãos do público.
Além desta, outra obra que estará exposta no Pavilhão é Untitled NRA, também de 1991, que consiste em uma pilha de cartazes vermelhos sem nada escrito que estão lá para o público fazer o que bem entender com eles, desafiando a autoridade do espaço expositivo e iluminando questionamentos sobre a ideia da originalidade e do valor artístico.
Cindy Sherman
Untitled #402 2000 | Cindy Sherman
A artista norte-americana é notoriamente conhecida por seus auto-retratos conceituais, chamados assim pelo fato de, apesar do objeto da foto ser a artista, ela não estar se fotografando, e sim os diversos estereótipos da mulher na sociedade. Sherman “desaparece” das fotografias e dá lugar a donas de casa, secretárias, viajantes, mulheres fatais, divas, jovens indefesas e vilãs.
Seu corpo é seu material e maquiagem, adereços, perucas, figurinos, próteses e até manequins constroem suas obras. A artista, que exerce o papel de diretora, maquiadora, fotógrafa, figurinista e atriz para compor seus trabalhos busca configurar identidades móveis, de forma que o espectador não consiga reconhecer a fotografada como uma pessoa só.
No Pavilhão estarão expostas 15 obras da artista, entre elas, Untitled #216, em que a artista interpreta uma Madona Renascentista, além dos auto-retratos em cor, três da série Untitled Film Still, onde a artista interpreta personagens de um filme fictício e tira fotos, como stills destes filmes, das heroínas inventadas por ela.
A nova geração
Me, Jesus and the Children 2001-2003 | Dan Colen
Além dos gigantes consagrados, Em Nome dos Artistas traz um bom panorama do cenário mais recente da arte contemporânea norte-americana. Talentos mais recentes também são destaque da mostra, como Adam Putnam, Dan Colen, Frank Benson, Trisha Donnelly e Nate Lowman. Destaque para os fortes trabalhos com luz e sombra de Paul Chan The Seven Lights (2005-2007) e Sade for Sade’s Sake (2009).
mais: www.emnomedosartistas.org.br
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